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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Texto de Anderson Bandieri


Anderson é nosso primeiro educando, fez nossas oficinas do Projeto VAI em 2007, de dança afro e dança do maracatu nação kambinda, no CEU Vila Rubi.Hoje ele segue seus estudos na dança e participa conosco da formação de dança negra contemporânea com o Mestre Pitanga e faz seu depoimento.
A sua trajetória é prova material do nosso trabalho e nos emociona cada palavra desse texto.
Anderson sinta-se abraçado.

Depoimento


O q falar sobre tudo aquilo q vc me proporcionaram este ano...? Poxa vida! É muita coisa... Sabe deus se vou lembrar...
Acho que, primeiro, devia começar dizendo que vocês foram uma coisa super especial pra mim... Acho que se tivesse ficado com o meu parco conhecimento (e põe parco nisto), eu não sequer haveria descoberto que posso dançar... Na verdade, já falei isso pra vocês, mas repito de novo: eu só quero ser um dançarino por causa de vocês e só descobri a dança negra por conta do conhecimento que vocês me passaram... E continuam me passando!!! Só sei que se um dia tiver um pouquinho da vitalidade que vocês têm enquanto dançam, deus!, Estarei muito feliz! Sabe de uma coisa... Até digo a vocês... Seu Pitanga é muito bom, mas mestre mesmo, é, pra mim, vocês todas... Quando vejo cada uma de vocês dançando penso...: “Deus, que coisa linda!”, e o legal é que cada uma de vocês possui uma peculiaridade... Uma singularidade...; os movimentos, apesar de serem os mesmos, tomam formas novas no corpo de cada uma: você, Débora, toda graciosa, leve, delicada... Rápida, veloz, firme, mas..., ao mesmo tempo, suave...!, Braços esticados, pernas alongadas, movimentos retos, delineados, bem desenhados... Enquanto você, Pri... hahahaha... São muito legais os seus movimentos... Parece que se encaixam perfeitamente em suas características...: são baixinhos, muito, mas muito sinuosos, as suas costas, deus!, Parecem quebrar em mil pedaços ... Como consegue fazer aquelas ondas na coluna!?! Todos os passos ganham a força, a energia e a vitalidade que só você tem..., ganham maior magnitude... Me lembram as orixás guerreiras... Firmes, mas ao mesmo tempo, sensuais quando querem... E, ah!, A Flávia... A Flávia tem um mistério que ainda me calco a decifrar... Não sei, mas desde o momento que vi a primeira apresentação de vocês e que a Flávia tava lá, no início, recebendo a todos, como uma anciã, não sei..., representando algum mito de criação, talvez humano ou talvez não... Aqueles movimentos: agachados, arredondados, pequenos, mas muito perceptíveis, suaves... Fazem-me ver-te, hoje, da mesma forma, movimentos próximos a isso, mas, tem mais, bem mais... Também são agressivos (e alegres), amplos (e miúdos)... Parece que todos se tornam moimentos sábios, cheios de conhecimento, e uma explosão próxima a acontecer..., às vezes acontece, às vezes nos deixa na espera de acontecer... e, ó deus!, A Dri... ai, a Dri... ela ainda acredita que não dança... Que tem dificuldade em ouvir, de entrar no ritmo... Essa Dri é uma cabeçuda, isso que ela é... hahahahaha... Quando a mente dela se esquece, quando o corpo age, e somente o corpo, e a cabeça se esquece que não sabe fazer... vixe!... Ai sim... Ai ela faz, e acontece a mesma mágica que ocorre com todas vocês, e então vejo a firmeza da Adriana impressa, marcada em seus passos, todos, todos eles, como se fosse uma fúria intensa, uma incandescência tremenda... Todos emanam energia, vitalidade, garra e... Sim... Força de vontade... Quando a conheci, ela trazia assim como eu, o medo de dançar, de entrar no ritmo, de soltar o corpo (pelo menos era isso o que eu sentia), mas, agora... É outra coisa... Outra mesmo! É muito mais segurança, é muito mais vontade, e muito pouco medo!, E repito, assim como eu!
Aprendi a ver a dança com outros olhos, com mais clareza, com mais embasamento... Compreendi que não há certeza no certo e errado no errado, não há forma correta ou não de se fazer... O movimento molda-se – ele faz questão disso! –, de se moldar todo, por completo, ao corpo de cada um, ao jeito de cada um, a forma que cada um vê o movimento, ao estilo que se propôs a fazer, e, sem dúvida, as influências que já teve em sua vida... Digo isso porque, com toda a clareza, eu fazia movimentos pequenos, miúdos, acuados... Era o momento, o instante em que vivia, a situação de incerteza sobre o que fazer, não só no movimento, mas em todos os entremeios da minha vida, e, da mesma forma que eles foram expandindo-se, abrangendo maiores proporções, resplandecendo confiança, é porque assim minhas atitudes se tornaram... Não tão firmes quanto esperava, mas que, aos poucos, só aos poucos, ela avança, e expande, e cresce, e desenvolve... E isso é que é legal, isso é o que é interessante: o sair das suposições, o encarar e fazer, não pensar... Esquecer o pensamento, o certo, o correto, a fórmula secreta que guarda o passo, o gesto, o movimento..., e sim, partir a vivê-lo, e, por completo, achá-lo-á... Fato simples, e complicado este... Porque, às vezes, o que nos atrapalha mais é a mente, é o pensar demais... O buscar segredos, e esquecer que aquilo só existe porque está presente no corpo (e na alma) de algumas pessoas, e que são elas, que conforme as várias interpretações que dão ao passo, ao movimento, ao gesto, que aquela manifestação existe, seja o ramo da arte qual for... Tomar posse de algo, de uma expressão, é ter certeza daquilo que a fez e daquilo que você pode fazer a ela... Além do que ela pode fazer a você! É mais do que tomar posse, é saber que é constante, é fluida, é incerta, é crescente, é impalpável e... Indissolúvel... Que não depende só de você, mas que também a é... Que é você e não... Que é todos e tudo... É onipotente, onipresente... Um invisível palpável, que se galga, no peito e alma, que se marca, e sangra, e dói, mas, que no fim, não se pode viver sem, sem tal dor, sem tal maranha na mente e no corpo... Quer ginga melhor que essa?
Só sei que aprendo a saber, cada vez mais, que o que sei é pouco, e não sei nada, no fim de tudo... que tudo é tão muito e que o muito é utópico... Um sonho... Mero devaneio, inalcançável... Impalpável... mas, que ao mesmo tempo, nos deixa na crença que sabemos, que sabemos algo, mas, que sabemos pouco, para continuarmos buscando saber mais, saber o tudo... Sempre... Mas sempre pouco... É isso o que vocês me fazem saber, é isso o que vocês me fazem crer: que sempre tem algo a mais, que aquilo ali pode ser de outro modo, numa outra brincadeira, num outro ritmo, numa maior liberdade (ou firmeza)... E essa coisa de buscar, de pesquisar, de ver o novo naquilo que pensava ser velho, se apropriar daquilo que é dos outros, e do que é seu, ao mesmo tempo, é, alterosamente, impagável...
Digo: posso, muitas vezes, ter ficado com muito cansaço, fadigado, exaustado, mas, saibam, apesar de ensaiar por oito horas no Trivolim, ir para lá era revigorante... Era um cansaço que, deus, como era bom... É sempre muito legal saber que você preencheu seu dia de coisas que você mais adora, e que tá sempre, sempre, indo ao encontro de coisas novas... Aprender é sempre uma dádiva... Mas, aprender com vocês, deus!, É um mais que isso... Naquele dia em que havia feito a prova mesmo do Enem e que havia ido supermal, ou no que eu tive uma apresentação e tive um erraço... Eu só fiquei bem porque sabia que eu ia dançar... Ia me acabar de dançar... Ia ficar cansado de mais!!! Mas cansado de um prazer tremendo em fazer o que gosto, o que aprendi a gostar... E aprendi só por conta de vocês!
Ah! tô puxando o saco demais, de vocês, em?! Assim não pode... hahahaha...
Essas aulas do Pitanga foram um máximo, podem ter certeza disto... É bárbaro saber que vocês também erram, que vocês também ficam preocupadas, que não sabem fazer dada coisa, é engraçado e legal... é bom saber que você tá errando mas que não é só você, sabe! Hahahaha... Ver todos os passos diferentes, aprender a criar seqüências, misturar movimentos rápidos e lentos... Poder melhorar a percepção, rápida, num segundo, pra poder acompanhar o ritmo do Pitanga, é espetacular... Cria-se agilidade, velocidade, resistência, percepção corporal... Inúmeros elementos mais... Tive, inclusive, a reaprender a comer banana, que é um cocô! Tive que cuidar melhor do meu corpo, se não ele não vai conseguir agüentar o impulso que é pedido! Tive que aprender a beber menos água! – parecia no começo que eu ia morrer se não bebesse – Tive que me atentar no olhar, no movimento, na memória – e lenta essa minha como é, vixe... Foi difícil! (e ainda é!) memorizar o movimento é trabalho árduo, é treinamento, é esforço... e são práticas, todas essas, que eu hei de levar pra sempre... Não me envergonho de dizer que não sabia quase nada de Afoxé, a não ser aquilo que me passaram – que por tão desgastado pelo tempo, muitos se perderam! – e de afirmar também que roubei na cara dura seqüência inteiras pro Trivolim e outros trabalhinhos mais, além de poder criar outras seqüências, com passos que melhor se adaptaram ao meu corpo.
Ah! Sim... Uma coisa estrema que percebi... Os passos melhor escolhem as pessoas, eles sabem quem os merece, quem os deve tomar por completo, quem deve tê-lo em essência. Escolhem o corpo, a pessoa, a aura que melhor se adapta a ele... Há passos que, por mais que você tente, não lhe cabem, não lhe merecem, por fatores enes que não são descobertos... Passos uns que se embelezam em seu corpo, e outros que não lhe compõem... E os passos falam, ah!, Como falam... Falam direto se é teu ou não, e a resposta é clara, ou vem uma liberdade enquanto o faz ou um estranhamento, uma insegurança, uma sensação estranha de não tê-lo recebido ou executado-o por completo! Eles falam e sussurram, dizem se o tomam ou não!
Surpreendo-me ao lembrar o tanto de movimentos novos que tenho comigo e o quanto de coisas já pude fazer com eles... Pude ensinar o pessoal do Trivolim algumas de suas seqüências, que, além de treinamento à memória, é uma forma de você ser obrigado a prestar atenção onde vai a mão no momento em que o corpo gira, e como o pé fica quando cai no chão... São perguntas óbvias que muitas vezes não a fazemos ou sequer a percebemos, mas que fazem a total diferença... Encarar o tal movimento dos lenços sem os tê-los é loucura... É pô-lo em incompletude, insignificância... Agora, evidenciar o porquê do movimento é ter certeza do porquê de sua existência... A explicação é suma, e a vejo como sendo necessária. Me lembro muito bem que, em todas as aulas que tive com as senhoritas, havia, sempre, um pouco da estória de cada paço, de cada orixá mencionado, do porque do movimento, da manifestação, do surgimento do instrumento e daquilo outro mais... E isso enriquece, fortalece, pavimenta, edifica... Faz vivificar a certeza do mantenimento de um valor cultural enraizado por anos, séculos, em antepassados, em valores simbólicos, em compreensão de signos enes que passam em desimportância e, por isso, perdem o significado! Creio que vale aqui ressaltar uma breve opinião sobre a aula do Pitanga: saibam primeiro, certeza essa eu tenho, que o tempo é curto e pouco rentável, mas, pra mim, é muito mais valoroso saber o porquê do movimento ser feito desta forma, e não de outra, do significado que tem, do fazer com as mãos pra cima e não pra baixo... Saber, simplesmente, para poder assimilar o que estou fazendo, para criar uma consciência... É muito mais fácil saber que estou fazendo um passo de Oxum e que ela esta furando o ar com espelho do que fazer o passo sem saber o que este significa... Quando se tem a dimensão de seu significado se compreende o porquê deste ser de tal forma, e sua conseqüente assimilação é, por completo, mais rápida... Sei disto porque quando vocês falavam que aquele passo era de Xangô, sabia que não podia ser sinuoso como nos passos Oxum, sabia que era necessário ser mais firme e preciso, que quando os machados estavam cortando, não podiam ser delicados e frágeis, mas sim incisivos e fortes... Saber a estória por detrás do movimento deixa tudo muito mais claro, e o interessante é que a dança sempre é além... Ela transcende a dança, a arte transcende a arte... Qualquer manifestação transcende ela mesma... É mais do que simples movimento, é mais do que a simples expressão, tem muito contexto de formação que é importante de se entender... Você entende além de um movimento, entende a cultura formadora, os valores ritualísticos e sincréticos... Mas, como bem disse inicialmente, compreendo que o tempo é curto e isso é difícil de se fazer, entretanto, deixo esta questão com vocês, meninas!
No momento em que vamos dançar pro tambor... Bem... Prefiro não comentar esta hora... hahahaha... Ela é, com toda a certeza, mágica, mas até agora não me senti descontraído o suficiente pra dançar pro tambor! Mas, creio que isso só seja a prática... É a cabeça que impede... O corpo que ir, mas a cabeça trava o corpo dizendo a ele o que fazer... Isso atrapalha muito... Mas creio que mais alguns desses e conseguirei criar maior intimidade com o tambor, e o tocador, mas vejo aquela cena algo muito rico e belo, expressão total de integra... Que só se completa quando existe a disputa: tambor e corpo, e a união dos mesmos, em ritmo uno...
Queridas... Acho que já falei demais, na verdade, eu falei demais... Vocês sequer vão ter paciência para lerem uma coisa desta... Queria muito falar mais um pouquinho, mas, outro dia, ainda tenho que falar do ciclo de palestras e mais algumas coisas das aulas de Dança Negra Contemporânea... Eu só falei da parte afro, ou melhor, negra, como diz o Pitanga... Ainda tem a Contemporânea e a junção delas, né?!... Mas, isso, deixa pra depois, acho que escrevi tanto que minha cabeça não consegue mais produzir... Creio que fiquei umas duas ou três horas escrevendo este texto... Então, lindas, um bjão

2 comentários:

  1. Salve Capulanas, tamo junto nessa caminhada, muita paz, saúde, cultura e sucesso.
    Alessandro Buzo
    www.buzo10.blogspot.com

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  2. parabéns pelo fã e aprendiz que vcs têm!

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